Já há uns dias que ando para escrever este post mas tem-me faltado tempo.
Faz hoje uma semana que dei as últimas horas de formação à minha turma de jovens de Rio Tinto. Um ano e quatro meses depois, 210 horas de formação de Matemática Aplicada depois, eis senão quando chega o fim.
Um fim por mim desejado durante muito tempo!
Esta foi, sem dúvida, a pior turma que algum dia tive. Os primeiros três meses foram o caos. Tive que os "domesticar". Na primeira vez que lá fui, mandei três para a rua e fui ameaçada por um deles. Fiz participação de ocorrência e marquei a minha posição que não poderíamos consentir este tipo de atitudes sob o risco de perdermos a turma. E o miúdo veio expulso. A turma era tão má que passado um mês de ter começado, fez-se uma reunião extraordinária para "limpar a turma". E nessa reunião expulsou-se um e suspenderam-se outros dois.
Uns tempos depois, outro veio expulso porque disse à minha colega de Inglês, "Vá apanhar no cu!".
Apesar destas expulsões e das regras severas que impúnhamos, a turma continuava impossível por causa de um miúdo. O C. O miúdo era instável, insolente, provocador mas por outro lado via-se que estava desorientado. Precisava de um ombro amigo. Todos nós o tentamos levar a bem. Todos nós o tentamos recuperar. Eu disse-lhe muitas vezes para ele aproveitar aquela oportunidade para endireitar a vida. Mas não conseguimos. A droga e o roubo eram uma presença na vida dele. Vivia com uma tutora. Os pais tinham sido presos quando ele tinha dois anos e ele andava a saltar de casa em casa desde então.
Um dia passou-se na aula do coordenador e desfez uma cadeira. Não houve hipótese. Tivemos que o expulsar. Nesse dia tive a certeza que a turma ia mudar e seria muito mais fácil dar formação. Quem sabe até lhes conseguisse ensinar qualquer coisa. Não me enganei! Não que tenha sido tarefa fácil. Os problemas disciplinares desapareceram quase na sua totalidade mas pô-los a trabalhar era uma tarefa árdua.
Cheguei ao fim com a sensação de dever cumprido! Que fiz muito por eles! Que lhes ensinei alguma Matemática mas não só. Mostrei-lhes uma forma diferente de estar na vida. Passei-lhes valores. Sei que não cheguei a todos mas sei que lhes fiz entender que se eles quiserem poderão ser alguém honesto e digno. Para alguns este curso poderá ser uma porta aberta para um 12.º ano ou um trabalho. Outros continuarão a ser parasitas da sociedade e a viver à nossa conta. Com bolsas de formação ou com rendimentos de inserção social.
Dei-lhes um último sermão. Pedi-lhes para lutarem pela vida deles. Para poderem dar melhores condições aos filhos do que as que eles tiveram. E falei-lhes do C. que aos 17 anos vai ser pai e anda metido na droga e a roubar. Não o esqueço. Não o esquecerei. Como poderia? Sei que não o conseguimos salvar da marginalidade.
210 horas de trabalho juntos é muito tempo. Apesar de tudo ficam-me no coração! E eu confirmo aquilo que sempre disse: Odeio despedidas!!!!
Andava tão cansada de dar formação de equivalência ao 9.º ano a jovens que dizia que não aceitaria mais nenhum curso. Há três semanas, recebi um email a convidar-me para outro curso igual a este. Nem hesitei!!!