Se ontem foi um dia em me senti realizada com a minha profissão, hoje é um daqueles em que me apetece deixar o ensino. Estou saturada e cansada! Hoje tive mais um problema numa das minhas turmas de jovens, mas este extrapolou qualquer limite de bom senso.
Uma das minhas formandas tem o triste hábito de falar com toda a gente como quem fala com os colegas de turma. Já lhe expliquei mais do que uma vez que não sou colega dela, como tal deve moderar o tom com que fala comigo, mas o raio da miúda é de uma agressividade que satura.
Hoje e no momento em que interrompi o grafitti que sua excelência estava a fazer, com uma pergunta simples, tal como:
- A. não vai passar a aula?
A miúda passou-se! Começou a levantar a voz e falar naquele tom agressivo. Chamei-a a atenção pela forma como estava a falar comigo e a miúda continuou a "espernear". Disse-lhe para sair que não queria mais conversa com ela hoje. A miúda continuou a dar espectáculo e eu deixei-a. Ao fim de uns minutos, fez uma pausa e eu perguntei-lhe se ela já tinha acabado o espectáculo. A miúda respondeu-me mais uma vez naquele tom que não era palhaça para dar espectáculo.
Eu já fartinha de a aturar, disse-lhe para sair. A miúda cismou que não saía porque não fez nada de mal. (Eu acrescento claro que não, só faltou foi insultar-me) Parei a aula à espera que ela saísse. Estivemos nisto aproximadamente quinze minutos. A dado momento, levantou-se, foi-se embora sem antes deixar esta pérola:
- "Eu vou é ligar à minha mãe e ela vem cá falar com a stôra e depois vamos ver como é."
Eu retomei a minha aula e passados nem 5 minutos a miúda abre a porta da sala e diz:
- "Já falei com o meu pai e a minha mãe e eles vêm cá os dois e depois quero vê-la a mandar."
O que me passou pela cabeça foi: Se os pais desta miúda forem como ela bem que sou espancada. Confesso que já me imaginava a ficar com um olho negro. Os outros formandos também não ajudaram e fizeram logo o filme todo que eu ia apanhar com um tiro de caçadeira.
No intervalo liguei ao meu coordenador e ele tranquilizou-me e disse-me que já tinha conversado telefonicamente com os pais mais do que uma vez e não eram pessoas para fazer esse tipo de coisas.
Quando acabou a aula, lá vim embora sem vislumbrar miúda ou pais. Passado um pouco, ligou-me o meu coordenador a dizer que a mãe da criatura lhe tinha ligado muito indignada porque a prof de matemática tinha chamado palhaça à filha.
Resposta minha: "Achas?"
-"Eu vi logo que não!", respondeu o meu coordenador.
- "Até porque isso seria um insulto para o artistas circenses..."
E depois repeti-lhe a estória e disse-lhe que a única pessoa que falou em palhaços foi a miúda. Ele ainda tornou a falar com a senhora que insistiu com essa conversa mas o meu coordenador, que é fantástico, defendeu-me e cortou os argumentos.
Depois de tudo isto, acreditem que hoje só me apetece rescindir contrato. Estou saturada!!! Este tipo de situações não mata (pelo menos até um deles se lembrar de me dar um tiro :)) mas mói! E muito!
Se fosse hoje não teria sido professora. Apesar de toda a minha vida, o ter querido ser. Não sou professora porque não entrei em mais nenhuma faculdade. Matemática, ramo educacional na Faculdade de Ciências do Porto foi a minha primeira opção. No ano de estágio, o meu orientador fez-me o maior elogio que me fizeram a nível profissional. No contexto da falta de colocações no ensino, disse-me que seria uma pena se eu nunca mais desse aulas porque eu tinha vocação para o ensino. O homem era uma besta mas eu nunca mais esqueci estas palavras. :) E depois disto tudo, continuo a dizer: Se fosse hoje não teria sido professora. Eu falo em professores mas a verdade é que eu só sou professora de canudo porque eu sou exerço a profissão de formadora, que vai dar quase ao mesmo. Tirando o facto de trabalhar a recibo verde e ser paga por hora.
Hoje em dia a classe dos professores é das mais desrespeitadas deste país. Além disso somos tido como aqueles que não fazem nenhum. Somos os preguiçosos que só trabalham 22 horas por semana e que não queremos ser avaliados e agora até somos aqueles que vamos ter conversas de teor sexual com miúdos de 12 anos. Somos todos farinha do mesmo saco.
Eu passo fins de semana inteiros a trabalhar. Passo a vida em reuniões. Dou cerca de 35 horas semanais de formação. Ainda tenho que fazer relatórios quando criaturas destas me infernizam a vida. Por isso, sim, depois de um dia como o de hoje se pudesse voltar atrás com o tempo, não seria professora, apesar de o adorar ser e achar que tenho vocação para o ensino.
E são em dias como estes que me faz ainda mais falta aquele secret smile...